Jornal MT Norte
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Um episódio que jamais esquecerei
13:37   23 de Agosto, 2019
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| CARlOS ALBERTO DE LIMA

Foi numa noite de um verão qualquer na minha saudosa e querida Sampa. Rua Pamplona, 924, era o endereço exato e eu estava chegando à república ali no edifício Palmares. E, de repente, eles surgiram do nada e sem um nada de motivo que justificasse aquele repentino surgimento, foram inquirindo: “Mãos na cabeça!”, o mais atrevido deles sofria de complexo de um não sei o quê que o diferenciava dos demais e por isso parecia-me um tanto impaciente: “Mãos na cabeça, seu porra!” Gravei essa frase. “Mãos na cabeça, seu porra”! Eu nunca vou esquecer. O que você tem aí no bolso? – perguntou. Inocentemente, num ato involuntário, levei as mãos aos bolsos e... “Eu disse mãos na cabeça, seu porra”, e o cassetete comeu-me as costas. Panfletos - respondi firme e não mais como um ato involuntário, porém, mais uma vez inocentemente.
 Panfletos era uma palavra subversiva para eles sendo que para mim era apenas um punhado de folhetos anunciando horário, data e local de um show de uns amigos músicos. O brutamonte berrou novamente aquele “mãos na cabeça, seu porra!” Enquanto gritava o cassetete comia. Mãos na cabeça seu porra! Só sabia que para aquele curto e baixo vocabulário, aquele seu porra? Algo errado não estava certo, como se diz nos dias de hoje: “Algo errado não está certo”. Essa frase genial é do genial André Martins Santos, eu só a emprestei e espalho porque a acho magnífica.
“Longe de mim ser o melhor, o melhor simplesmente é ser eu”; “A inveja é uma coisa ignorante, deve ser ignorada” mais duas frases geniais do genial André Martins, só para ilustrar. Não sou o melhor e, por parte deles não havia nada de inveja, já que nada havia a ser invejado, só achei desnecessária aquela abordagem. Era o que eu, na inocência de um jovem recém-chegado do interior, pensava. 
Depois viriam outras abordagens. Uma pior que a outra. Lembro-me de uma bastante bizarra ou no mínimo curiosa. Eu estava ali descendo aquela Alameda do Largo São Francisco depois de ter ficado por algumas horas na posição de pernas juntas e braços abertos feito o Redentor, encostado ao paredão da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e eles pareciam não me largar e “mãos na cabeça, seu porra” – o treinamento a eles dado nada parecia educacional. E olha que não era o mesmo brutamonte lá da Rua Pamplona.
“Onde você estava, o que estava fazendo, pra onde vai e fazer o quê?” Antes que eu organizasse as minhas ideias para responder aquelas perguntas um deles resolveu me ajudar: “você não me vai dizer que estava entre aqueles comunistas lá na faculdade?” – Sim, eu estava – respondi. Quando pensei que o cassetete ia comer mais uma vez, eles resolveram me liberar.

 
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