Jornal MT Norte
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Espaço: Um menino que tinha a casa estufada
12:14   04 de Novembro, 2019
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Carlos Alberto de Lima

Alice, a menina daquela história de Lewis Carroll, vivia numa casa, sua casa era um país, um país de maravilhas. Sua casa era o mundo, o mundo de Alice que nas aventuras daquele mundo a ela apresentado por um coelho branco, era um mundo de fantasias. Minha casa, a casa de minha infância, também era branca, não como o coelho do país de Alice, era branca de uma cal barata, dessas de Prefeitura, mas meu mundo também era de fantasias embora com o estúpido sonho de ser adulto.

Era uma casa de madeira bem velha que com o sol ou com o calor causado pelo fogão à lenha construído com um barro firme que eu não sabia, mas que hoje eu sei, chamava-se argila fora construído por meu pai e rebocado pela minha mãe que usou do mesmo barro adicionado a uma maior quantidade de agua para dar aquele aspecto liso à obra de meu pai.

O fogão da minha infância vivida naquela casa de madeira velha, com mais frestas que mata-juntas era o meu herói de barro. O herói de todos nós. Era ele que nos afugentava do frio daquele inverno paranaense e nos fornecia muitas batatas doces assadas sobre suas brasas, além do café sempre quentinho que permanentemente ficava em sua chapa.

E, como eu dizia, era uma casa de madeira velha e o nosso herói protetor do frio fora construído no cantinho da cozinha e por isso a cozinha, naquele canto, acreditem, estufou. Ficou com o formato de uma meia circunferência.

No começo eu sentia vergonha e temia que meus amigos me chamassem de “o menino da casa estufada”, mas depois fui me acostumando com o benefício que aquela parede me oferecia no jogo da “paredinha”, uma modalidade do jogo de burca que se joga em dois e consiste em jogar a burca batendo na parede e torcer para que o adversário, com o mesmo gesto, não fique com a sua burca a menos de um palmo da burca do concorrente. Passei a adorar aquela parede, parecia que minha mão ficava maior. As escolas bem que poderiam adotar essa brincadeira lúdica de ontem para que os meninos da internet de hoje possam, mesmo por um curto espaço de tempo, sair do mundo ponto com e vivam o mundo ponto feliz.

Com a ajuda de minhas irmãs que ainda adolescentes começaram a trabalhar, a casa foi parcialmente reformada. A parede foi concertada e os espaços ficaram maiores. Minhas mãos de medirem a distância entre as burcas, no entanto, ficaram menores.

O tempo passou e eu cresci. Cresci como também cresceram as lembranças da minha infância daquela casa branca de cal barata. Daquela casa de parede estufada.

Coluna publicada às sextas-feiras no jornal Mato Grosso do Norte

Email: carlosalbertodelima2011@hotmail.com

 
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