Jornal MT Norte
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Um carnaval rico em detalhes e sutilezas
13:00   28 de Fevereiro, 2020
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E Deus deu-me à sorte de ser um pouco mais evoluído dentro de uma família inteiramente conservadora. Daquelas que quando chegava o período momesco reservava-se em orações (não que as duas coisas não pudessem se fazer juntas) para afugentar-se da carne, mesmo com a quarentena quaresmal que viria em seguida, retomando nas cinzas o abraço com o sagrado e o desabraço do profano.
Adoro carnaval, o aflorar da alegria na democracia de credos, raças e ideologias, com um fascínio maior pelo desfile das escolas de samba ao registrar com pompa magistral a história de um povo e suas tradições, trazendo a cultura de nossos ancestrais para a cultura de nossos dias.
“Esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer”. De Geraldo Vandré, a canção cantada por milhões de brasileiros e que se tornou o hino nacional contra a ditadura militar, se repetiu no sambódromo de São Paulo no samba enredo da Águia de Ouro “O poder do saber – Se saber é poder”, uma homenagem ao patrono da educação no Brasil, o educador pernambucano Paulo Freire cuja frase “Não se pode falar de Educação sem amor” nesse País onde o ódio parece prevalecer, embora não sucumba à verdade, fez parte da letra do samba da grande campeã paulista.
No Rio de Janeiro as treze escolas do grupo especial fizeram um carnaval de alegria, de um colorido digno de passarela. E dessa vez não deu nem pra Mangueira, nem para a Portela e nem para a minha Mocidade de Padre Miguel que homenageou a eterna Elza Soares.  Foi a Viradouro, a vice-campeã de 2019 que 23 anos depois, nesse 2020, chegou lá.
Todo o desfile foi ritmado pela forte atmosfera social. A São Clemente trouxe num carro laranja o humorista Marcelo Adnet, um dos autores do samba-enredo “O conto do Vigário”. Adnet fez ate flexão de braço. “Brasil compartilhou, viralizou, nem viu! E o País inteiro assim sambou. Caiu na face News”, dizia a letra do samba.
A Mangueira cantou a intolerância apresentando um Jesus negro, favelado, índio e até mulher. “Favela pega a visão, não tem futuro sem partilha, nem messias de arma na mão”.
No ritmo do mestre Ciça a campeã Viradouro levou pra avenida a força das mulheres negras com as Ganhadeiras de Itapuã que com o trabalho na lavagem de roupas ganhavam pra comprar a liberdade de outras. “Ó mãe. Ensaboa mãe! Ensaboa pra depois quarar”. 
E na ultima quarta-feira, 26, foi confirmado o primeiro caso do corona vírus na América Latina. Infelizmente no Brasil. Que o Deus de todas as frentes e de todas as cores nos proteja.

 


 

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