Publicidade
         
      
         
Na linha de frente
10:57   04 de Maio, 2015 - Fonte: Jornal Mato Grosso do Norte

    A figura humilde e avessa a grandes vaidades de Fernanda Montenegro contrasta com os superlativos de sua trajetória. Grande dama do teatro nacional, ela também se firmou como uma "grife" na televisão e no cinema. E segue, aos 85 anos, tendo profunda relevância no meio audiovisual brasileiro. No entanto, desde a estreia de "Babilônia", Fernanda se surpreendeu com as reações controversas do público ao seu trabalho atual. Na novela das 21 horas, a atriz encarna Teresa, a devotava e pragmática esposa de Estela, de Nathalia Timberg. "Casais gays já são comuns em novelas. Acho que o que atrapalhou um pouco a cabeça dos mais conservadores foi o fato de Estela e Teresa serem também idosas. Foi um furacão, mas passou e a história segue muito estimulante", ressalta.

      Fernanda enxerga em "Babilônia" um trabalho de reencontros. Além de Nathalia, sua amiga desde os anos 1960, a atriz também comemora o fato de voltar a trabalhar com Gilberto Braga, de quem fez anteriormente "Brilhante" e "O Dono do Mundo". "A gente se conhece há 50 anos, muito antes de ambos estrearmos na televisão. Gilberto era crítico de teatro e viu Nathalia e eu muitas vezes no palco. É uma alegria voltar a trabalhar sob o texto dele, que está mais afiado do que nunca", elogia.

P – Você e Nathalia Timberg estavam reservadas para "Babilônia" desde o ano passado. Assim que surgiu o convite, já imaginavam que a história poderia repercutir de forma tão intensa?

R – Não imaginava que seria algo tão forte. O que mais chamou a atenção do público nem foi o fato de ser um casal, mas de serem idosas e estarem juntas. As cenas são feitas com muita verdade, delicadeza, zero erotização ou desejo de criar polêmicas. A gente não entendeu muito bem a resposta raivosa de uma parte do público. Por sorte, as cenas continuam lindas, cativantes e naturais, como sempre foram e devem ser.

P – Você acredita que, de simples personagens de novelas, Teresa e Estela ganharam conotações políticas e de combate ao preconceito?

R – Com certeza. Passado o susto, o efeito de toda a discussão foi maravilhoso. O preconceito não tem escalas. Tudo o que é diferente da massa que se denomina "superior" pode vir a ser alvo de ódio, segregação e repressão. Por sorte, temos uma frente de pessoas que se rebela, propõe e reivindica. A novela levanta a bandeira da igualdade e do quão natural esse casal é. Mas não quer fazer isso de forma didática ou para ditar algum ensinamento e regra. Queremos apenas retratar o cotidiano. A televisão se posicionou. Isso é importante e representa evolução. Outras bandeiras também precisam de visibilidade.

P – Quais você destacaria?

R – A televisão ainda tem medo de certos assuntos. A velhice, por exemplo, está se provando ainda um tabu. Nos bastidores, entre as atrizes, isso é uma questão complexa. Já que os produtos televisivos exaltam muito a figura do jovem, muitas pessoas que já passaram dos 50 anos começam a se preocupar com a longevidade de suas carreiras de forma desesperada. As mulheres e sua vaidade estética são as mais abaladas.

P – Você passou por essa fase em algum momento?

R – Quando completei 40 anos, fiz uma plástica para retirar as bolsas que se formaram na região abaixo dos olhos. Tempos depois, elas voltaram e passei a não me importar mais. Fazem parte de mim e, depois que tirei, elas voltaram muito maiores. Há muito que não ligo mais para isso e quero apenas estar bem. Em vez de me cuidar para trabalhar, trabalhar é uma forma de cuidar de mim.

P – Como assim?

R – Atuar, para mim, se tornou uma grande terapia ocupacional. Faz parte dos meus cuidados diários com a saúde, por exemplo. Assim como mantenho uma alimentação mais balanceada, vou ao dentista, tomo dois banhos por dia e faço exercícios, atuar também é parte dos procedimentos para garantir uma velhice vivaz. Nunca quis ser a senhora que fica sentada na cadeira o dia todo.

 

"Babilônia" – Globo – De segunda a sábado, às 21 horas.

 

 
COMENTÁRIOS
© Copyright 2014 Jornal Mato Grosso do Norte