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CINCO PERGUNTAS: Olhar interno
Em “Aruanas”, Luiz Carlos Vasconcelos ressalta a importância da temática ambiental em tempos de pandemia
16:57   03 de Julho, 2020
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por Caroline Borges

TV Press

Em um primeiro momento, Luiz Carlos Vasconcelos não enxergou nada que o aproximasse do ambicioso empresário Miguel, seu personagem na série “Aruanas”, da Globo. Mas bastou ler alguns episódios do roteiro e mergulhar na preparação de elenco que o ator percebeu que todas as emoções e sentimentos do vilão estavam muito próximas. Mais precisamente dentro de si. “O ator acessa lugares horríveis que estão dentro da gente. Faz parte do que somos. Eu e Miguel somos o mesmo. A gente busca dentro da gente seja o bonito ou o feio, o luminoso ou o sombrio e, dentro da trama, vai procurando uma progressão lógica. A série é bastante clara nessa evolução do personagem”, explica.

No “thriller” ambiental, Miguel é dono da mineradora KM e rivaliza diretamente com o quarteto de protagonistas. Seus interesses na região amazônica correm perigo com a investigação da ONG Aruana, que pode frustrar seus planos. Mas a ganância e a briga contra as ativistas escondem o avô querido e bondoso que Miguel é longe dos negócios: ele tem um amor incondicional pela netinha Gabi, papel de Manuela Trigo, menina com paralisia cerebral e que é capaz de derreter o coração do avô. “Acho que ‘Aruanas’ traz um assunto que estava fora das manchetes, afinal estamos atravessando uma pandemia. Temos de pensar o que será o normal após essa pandemia. Se com as fábricas paradas e menos carros nas ruas os rios ficam limpos, como o contrário disso pode ser o normal? Essa sociedade de consumo não tem mais espaço, não cabe mais. Temos de discutir como salvar o mundo e nos salvar. Isso não é utopia”, defende.

P – Apesar de ser um empresário ambicioso e inescrupuloso, Miguel também apresenta uma faceta mais leve e doce na presença da neta. Como você traduz essa dualidade do personagem?

R - O Miguel não é aquele vilão de uma camada só, ele tem muitas camadas. Ele é capaz de atitudes egoístas tremendas, a ponto até de matar, mas também é capaz de um amor profundo, como o amor pela netinha. De certa forma, ela é um homem incrível como batalhador capaz de construir uma trajetória profissional. Ele veio de baixo até se tornar um empresário. Mas, ao mesmo tempo, na dimensão mais humana, é extremamente primitivo. Talvez por ter sofrido e vivido o que viveu, é capaz das coisas mais atrozes para conseguir o que quer. É um alienado de si mesmo. Ele é um total ignorante de si e do outro. O Miguel não é um vilão chapa branca.

P – Como foi seu processo de composição para o papel?

R – A leitura dos episódios e as sugestões e indicações dos diretores foram muito importantes. Embora eu também seja diretor, como ator, sou cego, fico indefeso, eu me ponho na mão do diretor e de quem está fazendo essa preparação. E eles vinham com toques preciosos nos momentos mais difíceis. Agradeço a toda a equipe de direção por isso. Mas o que mais me fascinou foi perceber que esse Miguel tão primitivo e alienado de si mesmo, com seus acessos de fúria e amor, estava em mim, dormia em mim em algum lugar. A diferença é que eu tenho consciência disso e consigo domar esses sentimentos, sem que esse “bicho” venha à tona. O Miguel tem o bicho dele solto, principalmente por ter um ego imenso.

P – Na série, você contracena com a Manuela Trigo, atriz-mirim com paralisia cerebral, que dá vida a Gabi. Como foi dividir as sequências com a jovem atriz?

R - Pode-se talvez cometer o erro de se enxergar primeiro sua condição física, mas a Manu é antes de tudo uma atriz, com suas ideias e criatividade próprias. Isso era a coisa mais comovente e linda da relação. A gente ia para a cena, ensaiávamos e ela sabia o que tinha que dizer, mas ia além. Ela queria sugerir e a gente vibrava junto. Passava também a ser meu o prazer daquele avô em ver a netinha se comunicando. Contracenando com a Manu, como não aflorar o amor, o que há de melhor em mim? Vai ser para sempre minha netinha.

P – De que forma “Aruanas” pode despertar uma consciência ambiental?

R - Antes de qualquer discussão sobre devastação ou garimpo, temos de defender a vida, em todas as suas possibilidades. Isso não deveria se questionar. E isso deve ser feito com dois pés fincados: um no direito humano e outro no direito da natureza. Isso ficou muito claro quando filmamos na Amazônia: um passeio em qualquer embarcação num igarapé me fazia entender e gritar isso: a luta dessas mulheres (as protagonistas da trama) é uma defesa na base pela vida. Todo mundo deveria de alguma forma pôr os olhos em alguma área de devastação da Amazônia para não se iludir só com suas belezas tremendas.

P – O Brasil e o mundo seguem enfrentando uma pandemia. Como você analisa que a humanidade sairá desse momento inédito da história contemporânea?

R – Eu vejo uma crença ou uma torcida para que usemos esse momento doloroso para transformações tão necessárias. A nossa democracia está afundando. A gente vê sinais de que alguma coisa muito estranha pode acontecer a qualquer momento, várias ameaças verbais. É muito assustador ver que algumas pessoas embarquem em posturas tão equivocadas. Estamos vendo pessoas com um viés fascitóide, acampamento de pessoas armadas na frente do Palácio do Planalto? São pessoas que não estão com pudor de mostrar esse interior e o quão sombrio ele é. Torço para esse grupo se transformar.

"Aruanas" - Globo - de terça, às 22h40. A temporada completa está disponível no Globoplay.


 

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