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Miscelânea cultural
À frente do “Ofício em Cena”, Bianca Ramoneda mistura experiências no jornalismo e na atuação
11:48   09 de Dezembro, 2016 - Fonte: Carta Z

por Caroline Borges

TV Press

      Bianca Ramoneda sempre teve uma dificuldade para compreender seu lugar dentro do mercado profissional. Formada em Jornalismo e Artes Cênicas, a apresentadora se sentia dividida entre sua porção de atriz e de jornalista. Por muito tempo, exerceu as duas funções, mas nunca achou que as áreas pudessem se misturar. No entanto, o convite para comandar o “Ofício em Cena”, na GloboNews, marcou uma forte mudança no seu jeito de encarar a profissão. “Tinha muitos conflitos a vida toda por essa falta de harmonia. Fui sempre levando as duas coisas, pensando quando iria parar em um lugar só. Demorei a entender que são áreas complementares e não antagonistas”, explica. À frente de um programa sobre o universo criativo da televisão, onde diretores, autores e atores são os entrevistados, Bianca usa sua experiência como jornalista para deixar o assunto da produção mais palatável ao público. “Não posso fazer um papo fechado. O meu trabalho como jornalista é traduzir aquela conversa. Por ter bagagem com Artes Cênicas, consigo alcançar zonas mais difíceis. Vou mapeando o convidado e suando a camisa”, ressalta.

      O convite para apresentar o “Ofício em Cena” partiu de Monica Albuquerque, diretora de desenvolvimento artístico da Globo. O projeto já existia internamente nos Estúdios Globo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e era comandado por José Wilker. Após a morte do ator, a emissora decidiu transformar a produção em um programa. “A gente adaptou o formato para ser exibido na televisão. Expandimos o projeto”, lembra ela, que está na GloboNews há 18 anos e, durante 16, apresentou o “Starte” no canal. “Falo sobre arte há 16 anos na emissora. Não caí de paraquedas no ‘Ofício em Cena’. Sempre deixei visível a minha marca dentro do canal. São programas ‘primos’. Agora, piso mais fundo no assunto do que antes”, completa.

 

P – O “Ofício em Cena” está em sua quarta temporada. Quais as principais mudanças que você notou desde a estreia?

R – O programa, com certeza, amadureceu. Não precisamos mais explicar o conceito da produção para os entrevistados. Os artistas já viram e entenderam a proposta. É muito bom ter um local dentro da tevê que se dedique ao processo de criação. A gente fala não do produto em si, mas da construção, dos percalços, das dúvidas e dos acertos. Nesta quarta temporada, podemos atingir uma camada mais funda e amadurecida. Estamos mergulhando mais nos temas e tocando em pontos cruciais. Isso não é algo que acontece do dia para a noite.

 

P – Como assim?

R – É difícil estabelecer uma relação de confiança com o entrevistado em uma situação de exposição. Essa tensão que o “Ofício em Cena” gera é bacana. Nenhum entrevistado senta naquele palco e fica tranquilo ou confortável. Muitos me dizem que ficam uma semana pensando o que vão falar. Busco entrevistas vivas e pulsantes. Todas as pessoas que passam aqui já foram entrevistadas várias vezes. Minha ambição é mostrá-las de uma forma que o público nunca viu. Ao longo das quatro temporadas, estou sempre em alerta para não me repetir e cair em uma zona de conforto.

 

P – O projeto é uma parceria entre o departamento de entretenimento da Globo e o jornalismo da GloboNews. Para que público exatamente o programa é voltado?

R – A gente não queria que o “Ofício em Cena” se limitasse apenas a estudantes de Cinema ou Artes Cênicas. Não é um programa para um nicho específico. Quanto mais um artista fala sobre a sua obra, mais eco ele encontra. Essa divisão artista e não artista foi se rompendo ao longo das temporadas. A gente não está ali batendo um papo cabeça. É uma entrevista para médicos, arquitetos e estudantes em geral. Pessoas que se interessem pelos bate-papos. Tem de ser uma conversa legal para todo mundo.

 

P – Como funciona seu processo de estudo para as entrevistas?

R – Esse é o meu prazer e sofrimento (risos). A equipe do acervo faz uma pesquisa enorme sobre o convidado. São calhamaços e calhamaços de informações. Mas isso não é o suficiente porque montar uma pauta é um mosaico. Faço uma pesquisa própria em casa também com coisas que vi sobre esse artista, memórias minhas e pessoas que sejam próximas dos entrevistados. Além disso, antes de gravar, tenho uma grande conversa com o entrevistado, mas sem revelar a pauta. Isso jamais. A gente fala sobre o processo criativo de trabalho dele. Assim, durante a entrevista, ele entende o ambiente em que trabalhamos.

 

P – Durante as entrevistas, você tem alguma preocupação em não abordar questões pessoais?

R – Sim. Isso é uma linha de pensamento do programa muito bem definida. Não vou fazer um perfil do artista. Para mim, só interessa a vida pessoal quando ela toca no processo de criação. Na arte existem alguns pontos em que as duas coisas se tocam de forma visceral. Na entrevista do Matheus Nachtergaele, por exemplo, falamos sobre a peça em que ele fala da morte da mãe, que se matou quando ele tinha três meses. Isso é um marco na vida de uma pessoa. Esse acontecimento, obviamente, tem uma ligação com a forma dele de atuar ou como constrói as emoções.

 

 

"Ofício em Cena" – Globo – Terças, às 23h30.

 
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