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Herói torto
No ar em “Filhos da Pátria”, Alexandre Nero chama atenção para o contexto político brasileiro
13:11   27 de Novembro, 2017

por Luana Borges

TV Press

Rótulos passam bem longe de Alexandre Nero. Pelo menos, desde que começou a chamar atenção na televisão, quando interpretou o verdureiro Vanderlei, de “A Favorita”, exibida pela Globo em 2008, o ator tem conquistado protagonistas e papéis de destaque de tipos bem diferentes entre si. Mas, por mais que insira toques de humor em cada personagem que vive, ainda não havia aparecido nenhum trabalho de comédia escrachada até “Filhos da Pátria”. O gênero, no entanto, não chega a ser uma novidade na trajetória de Nero, que, antes de trabalhar na tevê, participou de vários espetáculos de humor. “As pessoas é que nunca tinham me visto fazendo humor. E acho que estava na hora de mostrar um pouco esse lado. Por isso, esse personagem se distancia muito dos outros que fiz, mas, inevitavelmente, uma hora vou me repetir porque não tem jeito: é a mesma pessoa, com o mesmo nariz, os mesmos olhos, a mesma voz... Não tem como”, avalia, citando seu papel na série escrita por Bruno Mazzeo.

Na história, Geraldo é um funcionário íntegro e correto do Paço Imperial. Mas sua retidão dura até o momento em que o personagem se vê diante da possibilidade de ganhar um dinheiro por fora corrompendo o sistema. A série é ambientada após a independência do Brasil, mas o assunto ainda é bastante atual. Por isso, Nero se anima com a possibilidade de falar sobre política, mesmo que de forma leve e lúdica, no atual contexto político e social do país. “Não que haja alguma novidade nessa corrupção e safadeza toda. Mas desta forma de hoje, tão descarada, acho que não lembro de nada parecido. Por isso é importante uma série como essa nesse momento”, pontua.

P – Em “Filhos da Pátria”, de homem honesto, Geraldo passa a ser corrupto. O que mais chamou sua atenção em relação ao personagem?

R – Acho que a grande sacada do Bruno Mazzeo de ter criado um corrupto que não é bandido. Porque todas as coisas caricatas a gente imagina de uma forma maniqueísta. Por exemplo, um machista sendo machão, um homofóbico sendo grosseiro, um racista sendo malvado. Isso tudo é muito comum, as pessoas são comuns. Mas você olha para o personagem e não vê um homem corrupto e mau, mas enxerga um pai de família. Esse cara é bom, é íntegro, então por que ele se corrompe? Porque é fácil. O dinheiro está na mão dele. Geraldo não vai preso porque trabalha com gente que tem contatos na polícia e no governo. O corrupto não necessariamente é uma pessoa má. O grande barato é que Geraldo é bom, então ele vai sempre estar incomodado com isso. Mas começa a pegar gosto porque é fácil, ele não vai ser preso e é gostoso ter dinheiro. Chega uma hora em que começa a não ligar mais para os outros.

P – As gravações ocorreram no final de 2016. Como foi o processo?

R – Foi muito calor, foi bem no verão. O calor foi uma coisa que chamou atenção. Foi a primeira vez que gravei com esse figurino de época. Eu sempre quis gravar trama de época porque acho muito bonito, mas me arrependi muito por causa do verão. Foi realmente de chorar. Tinha bastante estúdio, mas a gente fez bastante externa. É uma bobagem, mas fiquei com isso na memória porque sofremos muito com o calor forte. Mas foi muito divertido.

P – Por quê?

R – O Matheus (Nachtergaele) e a Fernanda (Torres) são engraçados demais. Então, me diverti muito. Meu personagem, apesar de ser o protagonista, é o que menos faz, ele é o “escada” mesmo dessas figuras. Era difícil, para mim, ficar sério, fazer aquela cara de bobo olhando para eles.

P – Você se inspirou em alguém para compor Geraldo?

R – Não me inspirei em ninguém. Infelizmente, não existe ninguém tão inocente quanto o Geraldo. Eu não consigo lembrar de algum político honesto. Não tenho esperança alguma no meu país. Só tende a piorar cada vez mais. Passaram a mão na nossa bunda e a gente riu. Apesar dessa corrupção existir há 500 anos, desde que o Brasil é Brasil, acho que nunca foi tão descarado.

P – Você já está envolvido com os trabalhos de “Onde Nascem Os Fortes”, próxima supersérie da Globo. O que pode adiantar sobre este projeto?

R – Vamos ficar um total de dois ou três meses gravando no interior da Paraíba, em um lugar de pouco acesso. Eu faço um empresário muito rico da região, mas ainda é uma trama um pouco nova para mim. A história faz um jogo com o público, que vai descobrindo as coisas aos poucos. A trama tem vários vilões e as pessoas vão descobrindo quem é realmente vilão. Mas meu personagem é um doce, a princípio.

 

"Filhos da Pátria" – Globo – Terças, às 23h.

 
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