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CINCO PERGUNTAS: Olhar sensível
Repórter do “Globo Repórter”, que completa 45 anos no ar, Edney Silvestre lembra de grandes coberturas da carreira
21:47   07 de Maio, 2018
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por Luana Borges

TV Press

A curiosidade move Edney Silvestre. Ainda na infância, ele costumava ser repreendido pelos pais por fazer perguntas além do que devia às pessoas. Com o passar do tempo, a sede por conhecimento só aumentou. Consumidor voraz de livros, filmes e teatro, o jornalista se dedica a ouvir o que o outro tem a dizer. Como repórter exclusivo do “Globo Repórter”, programa que completa 45 anos de exibição em abril, ele consegue fazer isso e ainda tem a chance de conhecer de perto histórias surpreendentes. Entre as que chamaram sua atenção estão a da Dona Sônia, vendedora de quentinhas e moradora da Rocinha, que foi personagem do programa sobre brasileiros vencendo a crise, e a do alpinista cego Erik Weihenmayer, que subiu o Monte Everest apesar da limitação física. “Meu interesse sempre foi pela capacidade humana de enfrentar, encarar, mesmo com medo, os maiores revéses e conseguir sair deles com bravura. Sempre tive esse olhar, mas acho que ficou mais agudo depois de testemunhar as quase 3 mil mortes nos atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova Iorque”, salienta.

A cobertura do ataque às torres gêmeas, aliás, representou um marco na carreira de Edney. Na época, ele trabalhava como correspondente da Globo em Nova Iorque e foi o primeiro jornalista brasileiro a chegar ao local. Depois disso, seu olhar sobre o mundo mudou. “Hoje, minha visão do mundo e da política é mais sombria que antes dos atentados. E mudou também a visão que muitos tinham de mim, de ser exclusivamente um repórter de cultura”, compara. Outras coberturas também foram importantes na trajetória do repórter. Entre elas a visita do Papa a Cuba e uma viagem pelo Iraque antes da derrubada de Saddam Hussein. “Era possível sentir que o medo do povo iraquiano não era apenas das atrocidades de Saddam Hussein, mas também dos bombardeios americanos e da intolerância religiosa”, lembra.

P – A linguagem do “Globo Repórter” se transformou ao longo do tempo e ganhou um ar contemporâneo. De que forma você percebe essas mudanças na produção das edições que estão sob sua responsabilidade?

R – O “Globo Repórter” sempre foi contemporâneo, desde o primeiro programa, embalado pelo som da guitarra elétrica de um rock progressivo. O programa acompanhou a dinamização da linguagem audiovisual trazida por novos e mais leves equipamentos de gravação. Quando gravamos no palácio da Princesa Marie da Dinamarca, por exemplo, a requintada imagem foi criada por um mínimo de luz e equipamento, que uma década antes seria impossível de fazer sem um enorme e pesado parque de luz e uma equipe de dezenas de pessoas. Éramos apenas o editor/diretor do programa, Saulo de La Rue, o cinegrafista Rogério Lima e o técnico de som Renan Farache, além de mim. Posso me soltar, posso conversar com a câmara, posso me levantar e caminhar sem planejamento ou combinação prévios. Isso me permite ficar à vontade nos programas sob minha responsabilidade, com descontração e simplicidade.

P – Como funciona a sua participação na escolha das pautas?

R – Gosto e participo de todas as reuniões de pauta da equipe, em geral feitas às segundas-feiras, quando a editora-chefe Silvia Sayão analisa os erros e acertos do programa da semana anterior. Toda a equipe traz sugestões e palpites para futuros programas. Como somos uma equipe muito diversa, surgem ideias tão distintas quanto “Vida de feirante”, um dos meus favoritos, e “Paixão por queijo”.

P – Qual é a reportagem dos seus sonhos?

R – Sou apaixonado por educação e o poder que ela tem de enriquecer as mentes, transformar vidas e tornar uma comunidade, e até mesmo país, melhor. Isso é permanente em meu interesse. Sou testemunha de como a educação pública me trouxe oportunidades, vi a metamorfose que provocou na Dinamarca, que tinha sido um país pobre e violento. Há uma revolução na educação acontecendo neste momento na Finlândia e Letônia. O que estão fazendo por lá pode ajudar nossa transformação no Brasil. Gostaria muito de mostrar isso.

P – Você se divide entre os trabalhos de jornalista e escritor. Como você concilia as duas funções?

R – Um bom escritor é um bom observador da vida e de tudo que é humano. Vide Graciliano Ramos, Machado de Assis, Nelson Rodrigues, para citar apenas três escritores de grande qualidade que também eram jornalistas. Meus romances são profundamente ancorados na realidade que testemunho como repórter. Aprendi a escrever e interromper textos de ficção segundo minhas atividades jornalísticas. Levei seis anos para completar “Se Eu Fechar Os Olhos Agora”. Estou desde setembro do ano passado escrevendo meu novo romance. Não acredito que termine antes de 2019.

P – Aliás, você acompanhou parte das gravações da nova minissérie da Globo, “Se Eu Fechar Os Olhos Agora”, baseada no seu livro homônimo e escrita por Ricardo Linhares. Como foi a sensação de ver os personagens que você criou ganhando rostos e vozes?

R – Meu envolvimento com a minissérie é emocional. Fui à locação (em Catas Altas, MG) com o Ricardo Linhares, o autor do texto televisivo, assistir a algumas gravações. Quando vi a cena do menino Paulo (o fabuloso jovem ator João Gabriel D’Aleluia) enfrentando a truculência de seu pai racista (Paulo Rocha), não tive como não ficar com os olhos cheios d’água. Ver Antonio Fagundes como Ubiratan, amparando os meninos Paulo e Eduardo (Xande Valois, outro grande talento), me arrepiou. Mas vale lembrar que a minissérie foi inteiramente escrita pelo Ricardo Linhares. Ele fez alterações na trama, aumentou a participação de personagens que eram apenas brevemente citados no romance, criou alguns outros, armou “ganchos” para que cada capítulo da minissérie surpreenda ao levar a outro. Como chaves de labirintos. Eu mesmo, lendo o roteiro, fiquei fascinado.

 

 

Globo Repórter” - Globo – Sexta, às 22h30.

 
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