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Perfil: Dedo na ferida
No ar em “Sob Pressão”, Humberto Carrão exalta produções que abordam política e corrupção
15:11   26 de Outubro, 2018 - Fonte: Carta Z
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Foto: JORGE RODRIGUES JORGE/CZN

por Geraldo Bessa

TV Press

                Humberto Carrão lembra perfeitamente do “choque” que levou ao assistir o longa “Sob Pressão”. Lançado em 2016, o filme dirigido por Andrucha Waddington foi fundo nas mazelas do sistema de saúde nacional a partir do livro “Sob Pressão: A Rotina de Guerra de Um Médico Brasileiro”, assinado a quatro mãos pelo cirurgião Marcio Maranhão e a jornalista Karla Monteiro. “A história é um 'soco no estomago'. Acho muito importante a arte se utilizar da realidade e levar o público a refletir os problemas do cotidiano. A proposta do filme me comoveu”, explica. Fã da obra, que acabou sendo adaptada para o formato de série de tevê no ano passado, Carrão vibrou ao ser convidado para participar da recém-lançada segunda temporada da produção, realizada pela Globo em parceria com a Conspiração Filmes. Com roteiro de Lucas Paraizo, os novos episódios evidenciam a corrupção política e administrativa que sucateia hospitais e iniciativas públicas de saúde. É neste caos que surge a figura Henrique, médico que acaba de passar em um concurso e vai trabalhar no fictício Hospital Luis Carlos Macedo. “Meu personagem é um médico novo, que está acostumado ao esquema de medicina privada e chega ao 'Macedão' meio perdido. Ele é o oposto dos médicos que já trabalhavam por lá. Gosta de sair mais cedo, está sempre cansado e trata seus pacientes com desdém”, resume.

Inicialmente apenas preguiçoso e apático, Henrique acaba por enveredar pelo caminho da corrupção quando conhece a nova diretora do hospital, Renata, de Fernanda Torres. “A área de ortopedia é uma das mais visadas quando o assunto é desvio de verbas, por conta das próteses e aparelhos utilizados. A Renata entra na série para seduzir médicos que queiram entrar no esquema”, justifica. Depois de viver heróis em novelas recentes como “Geração Brasil” e “A Lei do Amor”, Carrão se mostra satisfeito em poder em colocar suas feições de bom moço a serviço de um personagem de atitudes pouco ortodoxas. “Fiz alguns vilões no início da carreira, mas eram maldades mais juvenis. Gosto de papéis que me façam sair do óbvio. Henrique é um personagem muito político. Ele representa o brasileiro médio que pratica pequenas corrupções e acredita que eleger um fascista é a solução para o país”, posiciona-se.

Boa parte da preparação de Carrão teve a ajuda dos médicos que dão consultoria ao texto de “Sob Pressão”. “A série é de ficção, mas o compromisso com a realidade tem de ser respeitado. Preciso saber como um médico se porta em uma cirurgia, por exemplo”, destaca. Porém, a fase mais importante da imersão do ator no universo da saúde pública foi realmente “in loco”. Toda gravada em locações, a série utiliza como principal cenário uma parte desativada do Hospital Nossa Senhora das Dores, localizado em Cascadura, subúrbio do Rio de Janeiro. Entre ensaios e gravações, Carrão passeava pelos corredores, conversava com médicos e pacientes, acompanhava a chegada e a saída de enfermos e observava de longe os bastidores de uma grande emergência. “A gente tem de esperar muito entre uma gravação e outra. Então, aproveitei para pegar mais referências para o personagem. Foi um processo muito difícil porque é um local onde a vida humana está sempre em jogo “, avalia.

Natural do Rio de Janeiro, Humberto Carrão decidiu pela carreira artística bem cedo. Aos 10 anos, já estava nos estúdios de “Bambuluá”, infantil da Globo protagonizado por Angélica. Muitos testes depois, participou da temporada 2004 de “Malhação” e integrou o elenco da controversa “Bang Bang”. Depois de muitos personagens secundários, o momento de “virada” na trajetória de Carrão ocorreu após seu bom desempenho em “Cheias de Charme”, que abriu o caminho para outros trabalhos como “Sangue Bom” e “A Lei do Amor”. “Consegui construir um diálogo muito sadio com a televisão. Tenho feitos personagens incríveis e a direção da emissora respeita que preciso de um tempo entre um trabalho e outro”, valoriza o ator, que pretende tirar longas férias do vídeo para terminar o roteiro de seu primeiro longa, onde acumulará também a função de diretor. “Estou neste meio há muito tempo. É normal que eu tenha curiosidade sobre outras atividades também”, ressalta.

 

Visão de mundo

Humberto Carrão não se esquiva quando o assunto é política. Defensor de ideias em prol do social, o ator é facilmente visto em manifestações, como a em memória de Marielle Franco, vereadora carioca que foi executada por milicianos, e a do #EleNão, movimento liderado por mulheres contra a candidatura de Jair Bolsonaro. “O momento é de se posicionar. Ficar em cima do muro é uma forma de aceitar o que vier para a sua vida”, opina.

A verdade é que, além de deixar claras suas posições, ele também se mostra através das escolhas de seus trabalhos e personagens. Foi assim ao viver o antagonista de “Aquarius”, longa de Kleber Mendonça Filho sobre especulação imobiliária, o mocinho de “A Lei do Amor”, que abordou favores ilícitos e interferência política nas eleições. E, por fim, a corrupção na saúde abordada em “Sob Pressão”. “São assuntos urgentes. Trabalhar com esses temas me dá uma visão cada vez mais clara sobre o que quero como cidadão”, defende.

 

Instantâneas

# Pouco depois de sua estreia na tevê, Humberto Carrão teve uma breve passagem pelo canal educativo Futura, onde trabalhou na série “Alô, Vídeo Escola”, de 2002.

# Carrão participou de duas temporadas de “Malhação”. Em 2004, viveu o esperto Diogo. Na temporada de 2009, voltou como Caio, o antagonista principal da história.

# O ator é um exímio baterista e já fez parte do trio musical Olegários.

# O filme ainda sem título que marcará a estreia de Carrão como roteirista e diretor tem previsão de filmagem para o ano que vem.

 

 
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