Jornal MT Norte
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ESPAÇO
Um pouco mais de minhas lembranças
18:03   08 de Março, 2019
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Carlos Alberto de Lima

Aqueles remendos nas calças de meu pai como se ele fosse para uma festa junina. Minha mãe, do lar, remendava as calças de meu pai o tempo todo e meu pai, colono numa propriedade rural, ia para as festas juninas o ano inteiro.

Eu olhava para a minha mãe, um misto de amor e paciência, e orgulhoso daquela mulher que, além dos remendos nas calças de meu pai, sabia ser esposa, mãe e amiga, nem me passava pela cabeça sentimentos de vergonha ou revolta por sermos pobres. Amor, carinho e ternura superavam nossas condições de pobreza.

Lembro-me de meu pai com as calças de remendos, muito mais remendos que calças, indo para a sua lida diária, no derriçar e ensacar do café, na quebra do milho da safra ou para outra lida quando não era época de café maduro no pé nem de safra do milho. Ele também tinha uma calça de brim riscado que usava em ocasiões especiais, como quando ia à missa, coisa que fazia muito raramente, apesar de ser homem de fé, de fazer suas orações de joelhos e em silêncio, e de honrar os seus compromissos no armazém, no trabalho e no fio de bigode.

Minha mãe era mulher de muita reza e muitas amigas. Era congregada do apostolado da oração e usava véu preto e uma faixa azul atravessada ao peito que eu nunca soube o porquê daquilo. Aos domingos ela ia à missa com a faixa atravessada ao peito, com véu preto na cabeça e um vestido de malha surrado. Eu, meu irmão e minhas irmãs, acompanhávamos, passo a passo, aquela rotina.

Eu e meu único irmão homem, o José, vestíamos calças de brim barato (eu tinha uma com as tampas dos bolsos traseiros em formato de um ponto de interrogação que pareciam perguntar para onde ia aquele que os carregava), confeccionadas pelas mãos da dona Brasilina, mãe do Dito que era o mais velho, do Déco que era o do meio e do João que era o mais novo. Tinha também o Francisco, bem mais velho, mas era com os outros três que a gente convivia, eu, eles, o meu mano José e as caixas de engraxar sapatos.

Dona Brasilina era costureira de mão cheia. Era a dona Brasilina que não nos deixava passar frio com aquelas jaquetas, feitas com sobras daqueles feltros de mesas de sinuca trazidos de uma das “fábricas de mesinhas” que a minha cidade é campeã e uma das pioneiras nessa atividade – meus conterrâneos Reinaldo Schwingel, da Bilhar Régis, ou o João Osvaldo Pinheiro, da antiga Esporte São João, que o digam –. E eu me orgulhava da calça com as tampas dos bolsos traseiros em formato de um ponto de interrogação, daquelas jaquetas tipo cowboy e das camisetas estampadas com nomes e fotos de políticos que naquela época era permitido e os políticos não eram tão corruptos como o são nos dias de hoje.

Carlos Alberto de Lima é jornalista em Alta Floresta e escreve na coluna Espaço às sexta-feiras em Mato Grosso do Norte

 

 
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