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Extinção de Tracajá preocupa povos indígenas de etnias do rio Teles Pires
Índios das etnias da Kayabi, Munduruku e Apiaká realizam curso de manejo de Quelônios na Uniflor
12:52   07 de Junho, 2019
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José Vieira do Nascimento
Editor Mato Grosso do Norte

Índios de aldeias localizadas nas margens do rio Teles Pires estão preocupados com o futuro do tracajá, espécie que está ameaçada de extinção. Em busca de alternativas para fazer enfrentamento a esta situação, é que está sendo realizado na Faculdade de Alta Floresta - Uniflor um curso de 40 horas [iniciado na segunda-feira, 3, e com encerramento nesta sexta-feira], com participação de 44 professores índios e professores da rede estadual de Educação que trabalham nas aldeias.
O curso ensina aos indígenas práticas de manejo de Quelônios para a preservação do Tracajá.  A oficina é desenvolvida através de parceria entre a Uniflor, usina são Manoel, com a coordenação da empresa Naturae, que desenvolve um programa de preservação ambiental e Manejo de Quelônios no rio Teles Pires, contratada pela São Manoel. 
Durante a semana, os professores das etnias dos Kayabi, Munduruku e Apiaká, receberam informações a respeito do Meio Ambiente, sobre a importância de saber usar de forma sustentável a floresta. Os coordenadores da oficina mostraram que, para evitar a escassez dos recursos naturais, é preciso aprender a conhecer o Meio Ambiente.
O professor e indígena Ismael Hay, relata que os povos indígenas estão sendo afetados nos últimos 7 anos, pelo lixo que são depositados no rio, que está causando a morte de peixes e dos Quelônios. Ele também cita o esgoto produzido pela usina hidrelétrica. 
Após a construção das usinas hidrelétricas, Ismael afirma que se tornou comum peixes mortos e animais aparecerem boiando na correnteza do rio Teles Pires. “Isto tem preocupado a sociedade indígena dos Munduruku, Apiaká e os Kaiabis. Viemos para este curso com foco no manejos dos Quelônios, mas acabamos aprendendo muito sobre Meio ambiente. E este aprendizado, para nós professores, é importante para repassar para nossas crianças. Temos que cuidar do nosso ambiente, porque é nossa área, onde também viveram nossos antepassados”, disse.
O professor Arlindo, da aldeia Kururuzinho, afirma que os índios pretendem desenvolver um projeto para preservar o Tracajá. Segundo ele, a espécie está acabando, porque as usinas construídas no rio Teles Pires, tem destruído seu habitat. 

“Hoje o Tracajá diminuiu bastante. Por isso temos que fazer um projeto para preservá-lo, criar e soltar novamente no rio para que possam se reproduzir. Senão ele vai acabar”, observa.

A professora da Uniflor, Maria de Lurdes Cantarelli, uma das palestrantes da oficina, afirma que a meta é reparar um pouco os prejuízos trazidos pelas tecnologias, que são necessárias, mas que também trazem prejuízos. “Eles estão tentando buscar soluções e encontrar formas de fazer estes reparos”, disse.
Todavia ela explica que o tracajá faz parte de uma cadeia alimentar, e não são apenas os índios que os usam em sua alimentação. Animais ferinos, como as onças, também se alimentam deles. 
Vitor Hugo Cantarelli, do Sistema Naturae [empresa consultora de Meio Ambiente, contratada pela usina são Manoel, para cuidar da área ambiental no licenciamento da hidrelétrica] responsável técnico do programa ambiental e manejo de Quelônios do rio Teles Pires, alerta que há risco de extinção e em muitos locais já não existe Tracajá.
Ele destaca que para os Quelônios serem preservados, é necessário que os povos indígenas tenham consciência ambiental. Desta forma, destaca a importância de desenvolver uma mentalidade na população indígena, diferente do que se tem hoje. 
“O tracajá está desparecendo porque o consumo dele vem de várias décadas, sem que houvesse uma preocupação em preservar a espécie. O tracajá faz parte da cultura alimentar dos índios, mas hoje está faltando. Em muitos lugares praticamente desapareceu. As oficinas que estamos realizando, orientam para que os índios aprendam a se relacionar com o Meio Ambiente e eles mesmos passem a fazer o trabalho de manejo dos Quelônios”, observa Vitor Hugo.
Conforme Vitor Hugo, a construção das usinas contribuem com o agravamento da situação, mas não são as únicas responsáveis para o desaparecimento do Tracajá. “As barragens mudam fluxo genético, influenciam a sobrevivência do peixe, a qualidade da água e muitas espécies terão que se readaptar”, diz. 
Porém, ele disse que os índios terão que aprender a respeitar o ciclo de reprodução dos Quelônios. “É um longo aprendizado. O que aconteceu  é que durante muitos anos, comeram o tracajá adulto, o ovo e os filhotes, impedindo a reprodução.  Eles tem que mudar o comportamento, abrir a cabeça e entender que se não fizeram alguma coisa, irão perder esta alimentação, porque a espécie vai acabar”, enfatiza. 

 
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