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Análise: Seleção "flex" rompe padrões para bater a Argentina e chegar à final da Copa América
Após sair na frente com um lindo gol, Brasil se fecha, contra-ataca e valoriza tempo. Repertório pouco usual, mas necessário diante de um Messi soberbo
14:07   03 de Julho, 2019
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Foto: Reuters

Um Brasil “flex” conquistou o direito de disputar a final da Copa América. Num grandíssimo jogo de futebol, a Seleção topou negociar alguns de seus mais marcantes paradigmas diante da atuação da Argentina, possivelmente superior até ao que os próprios argentinos imaginavam. Intensa, veloz, corajosa e regida pelo gênio dos gênios da bola: Lionel Messi.

O manual de conduta futebolística da Seleção de Tite tem, entre outros itens, saída pelo chão, posse de bola e finalizações.

A vitória por 2 a 0 sobre o maior rival começou a ser construída com a cartilha seguida à risca. Mesmo pressionado, o time girou a bola pela defesa até encontrar espaços e jogar. Também foi belíssimo o gol de Gabriel Jesus, num toque complementar a um ataque que teve início em Alisson e passou pelos pés de 10 jogadores – só Everton não participou – até ser finalizado com a brilhante jogada de Daniel Alves, o passe perfeito de Firmino e o primeiro gol de Jesus em copas.

A partir daí, em vantagem no placar e acuada pela atitude de Messi de colocar o jogo sob seus braços em busca do empate, a Seleção recuou linhas e posicionou 11 jogadores no campo de defesa, fez substituição no intervalo, ganhou minutos com atendimentos médicos e viu até Alisson bater um raríssimo tiro de meta longo.

O extraterrestre Messi, como bem disse Tite, chegou a buscar a bola com os zagueiros em determinados momentos, e conduziu ataques com tabelas e triangulações rápidas pelo meio, setor no qual o técnico Lionel Scaloni apostava ter superioridade, sobretudo pela presença do craque.

Os erros e ajustes criativos da Seleção ao longo do torneio só têm sido possíveis graças à força do sistema defensivo, ainda intacto depois de cinco jogos.

Só uma equipe com um goleiro fora de série, laterais, zagueiros e um volante dispostos o tempo todo a marcar muito, sem falar na colaboração coletiva dos mais ofensivos, poderia aceitar o risco de ser atacada por Messi, Aguero, Lautaro Martínez, Di Maria e companhia. Risco, inclusive, de não pressionar Paredes, iniciador de jogadas que teve liberdade para procurar seus perigosos companheiros do setor ofensivo.

A estratégia funcionou porque o Brasil venceu, e mereceu sim, como também não teria sido injusta a classificação da Argentina. Ela carimbou a trave em duas finalizações e viu uma bola correr por toda a pequena área. Além de uma pitadinha de sorte brasileira, mérito de uma defesa que atrapalha, incomoda, pressiona, não permite finalizações em liberdade.

A recuperação de Marquinhos para bloquear o chute de Agüero após arrancada de Messi foi cinematográfica. O zagueiro, aliás, é forte candidato a melhor jogador da Copa América.

De uma Seleção postada para o contra-ataque esperava-se mais encaixes. Houve erros individuais e falta de sincronia. Everton, o mais indicado para essa proposta, mostrou-se um tanto abaixo da necessidade do confronto. A entrada de Willian deu maior recomposição defensiva e saída apoiada também em seu lado – por esse combo ele foi convocado para o lugar de Neymar.

Houve sinais bem positivos na semifinal, além da irrepreensível defesa. O Brasil deixa de bom da semifinal o melhor entrosamento entre Gabriel Jesus e Firmino, cada um com uma assistência para o gol do outro. Eles criaram três chances claras de gol, a primeira desperdiçada por um domínio impreciso de Jesus, e as outras convertidas.

Casemiro teve sua melhor participação na Copa América, apesar de ter desperdiçado contra-ataques no segundo tempo – mais por culpa da falta de movimentação dos parceiros para receber o passe em velocidade. E Daniel Alves, minha nossa, exibiu-se no significado pleno de um jogador grande, enorme, vencedor, íntimo das glórias. Por uma noite, ele foi o Messi de amarelo no sentido de compreensão de seu papel e execução.

Falta apenas um jogo para o título que pode dar a Tite e sua comissão técnica tranquilidade para dar passos adiante na remontagem da Seleção, em que a busca de compensar o envelhecimento da fortíssima defesa com mais volume ofensivo será o grande desafio. Mas, por enquanto, no domingo, contra Chile ou Peru, é esse Brasil, organizado, sólido e eficiente, que tentará quebrar o tabu de seis anos sem conquistas.

 
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