Jornal MT Norte
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O dia em que encontrei uma santa
Uma mulher empreendedora, que ainda na década de 50 criou cinemas, bandejão para os pobres e até uma rede de aleitamento materno
13:01   10 de Julho, 2019
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Era outono de 1988. Já naquela época, inúmeras vezes, o meu grupo de jovens ia ao hospital da Irmã Dulce, em Salvador (BA), tocar na missa dominical. Era sempre assim: uma vez por mês, aos domingos, pela manhã, saímos cedo para animar a missa dos enfermos no hospital, não sem antes fazer uma pequena coleta de produtos de higiene na paróquia de Santo Antônio além do Carmo, para levarmos aos doentes e idosos.
 Era o grupo “São Tarcísio” e a ação, de certa forma, fazia jus ao nome do santo que deu sua vida levando a comunhão para os cristãos prisioneiros. Nós, levávamos a música e a alegria de uma juventude disposta a fazer um pouco por aqueles que quase nada tinham e ainda eram privados de sua saúde, e que encontravam naquele hospital não apenas o alívio para suas doenças, mas o consolo para as dores da alma. 
 Contudo, eu sempre queria dar um jeito de conhecer a tal da Irmã Dulce. Inúmeras vezes, entrava em salas e locais tentando ver se a encontrava, mas sem sucesso. Às vezes, eu entrava por uma porta pela qual ela tinha saído minutos antes. Ficava imaginando de onde viera aquela freira, que desde a sua juventude tinha um apreço pelos pobres, a ponto de transformar a porta da casa de seus pais em um centro de atendimento às pessoas necessitadas, conhecida como “a portaria de São Francisco”. Aos 22 anos, já como religiosa, criou o primeiro movimento cristão operário da Bahia e nos anos seguintes o colégio Santo Antônio, voltado para a educação dos filhos dos operários; e que chegou a um ato extremo de amor pelos doentes,  invadindo cinco casas abandonadas para acolhê-los. 

Quando perguntada sobre o motivo pelo qual acolhia tantas pessoas, ela dizia: "Se Deus viesse à nossa porta, como seria recebido? Aquele que bate à nossa porta, em busca de conforto para a sua dor, para o seu sofrimento, é um outro Cristo que nos procura."  Depois de 10 anos, ela  transformou o galinheiro  do Convento Santo Antônio em albergue para o os pobres, os doentes que a procuravam no local, onde atualmente é o hospital Santo Antônio, carinhosamente chamado pelos baianos de hospital de Irmã Dulce, “o anjo bom da Bahia”. 

Irmã Dulce dos pobres reúne à sua volta centenas de profissionais de saúde e de áreas afins para colaborar com sua missão, que se tornou a missão de muitos, graças ao seu testemunho de fé, coragem, humildade e amor aos pobres: “Eu nada fiz, porque nada sou. Quem faz tudo é Deus, nunca se esqueça disso".  
Foi no corredor deste mesmo hospital, me lembro bem, em um domingo chuvoso, como são os outonos em Salvador, que encontrei uma freira sentada, com ar de fragilidade, parada no fim do corredor, e meu coração disparou: era ela, Irmã Dulce! Me aproximei e a cumprimentei. Sua voz era rouca, seu olhar era firme e terno. Apesar de sua saúde frágil, era perceptível sua força e determinação. Não me recordo das suas palavras, mas do seu olhar, do seu sorriso e de sua simplicidade. 
Uma mulher empreendedora, que ainda na década de 50 criou cinemas, bandejão para os pobres e até uma rede de aleitamento materno. Uma verdadeira empreendedora dos pobres e para os pobres, que  acolhia o mendigo, o doente, a criança carente, o sujo, abandonado, como ao próprio Jesus, cuidando, limpando, dando banho, cortando as unhas, colocando no colo, com um ardente desejo de amar e evangelizar, a todos os que batiam à sua porta. 
Irmã Dulce nos ensinou com sua vida que o amor a Jesus passa pelo amor aos mais necessitados. Como ela mesma dizia: "Sempre que puder, fale de amor e com amor para alguém. Faz bem aos ouvidos de quem ouve e à alma de quem fala".   
 
Isabeli Cristini de Oliveira é missionária da comunidade Canção Nova  e jornalista.

 
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