Jornal MT Norte
Publicidade
         
                
Um escritor quase inédito
13:15   29 de Julho, 2019
9babdc4f5653ce3da39a3c47d100fba1.jpg

CARlOS ALBERTO DE LIMA

Eureka! Como Arquimedes, descobri. Sou escritor. Não um escritor como Fiódor Dostoiévski  ou Máximo Gorki para falar apenas dos meus russos preferidos, ou dos brasileiros Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Machado de Assis, Cecilia Meireles, Chico Buarque e outros tantos. Mas, eu sou escritor, mesmo que dos menores.
Dos bons escritores costuma-se dizer: “ele possui textos inéditos”. Dos meus textos pode-se dizer: “eles possuem um escritor quase inédito”. Apesar de ter sido chamado à atenção por diversas vezes e por diferentes pessoas, mantenho esse meu desmazelo em, além de não publicar a maior parte do que escrevo, não guardar meio por cento desse material que acaba no anonimato, receoso em ficar preso às palavras.
Vivo o dia-a-dia, por isso quando escrevo algo que não é publicado esse algo não é guardado, detono no computador ou raramente substituo alguma coisa por outra coisa que jogo no pen drive que é sempre o mesmo até que dure. Tenho medo que minha cabeça se torne um pen drive. Que chegue um dia em que ela não armazene mais nada ou que não abra para receber novos conhecimentos, que hoje são deletados para serem substituídos por outros, e venha a ser substituída definitivamente.
Ao leitor que julgue estranho esse meu hábito, revelo que isso passou a acontecer faz pouco tempo. Em outros, costumava armazenar pilhas de livros, revistas e recortes de jornais. E costumava ainda separar assunto por assunto. Só parei com esse meu metodismo quando o cupim descobriu a minha estante e eu descobri que o cupim não era metódico.
Livros devem ser guardados e cuidados em lugar que alguém os guarde e os cuidem, numa biblioteca física ou na nuvem em caso de uma biblioteca virtual, por exemplo. Por isso, sinto não poder ajudar alguém quando sou procurado para ressuscitar assuntos antigos.
Às vezes dou-me a escrever poesias que depois de concluídas acabam voando com o tempo e com o vento que leve e lento leva, e livre e solto sopra, a folha que vai e volta. O vento que, forte e intenso, violento força, fecha e abre portas. Sedento empurra, devolve e absorve. Assobia zumbindo, gira taramelas, tranca janelas, rasga cortinas e segue buscando caminhos. Explode nos quintais em redemoinhos. Leve e lento forte e intenso, segue o vento, saltando cerca errante, dobrando esquinas na imensidão distante. O vento se espalha, esvoaçando cabelos e levantando saias. É o vento que liberta, ao levar e trazer o lixo que rola no tempo, pra fora e pra dentro, da inspiração do poeta. 
Volto na próxima sexta. Amém.

 

 
COMENTÁRIOS
© Copyright 2014 Jornal Mato Grosso do Norte