Luciano Vacari (05/04/2025)
Os jardins externos da Casa Branca, sede do governo norte americano, foi palco no último dia 02 de mais um capítulo da saga “como destruir as relações comerciais do mundo”, escrita, dirigida e interpretada pelo presidente Donald Trump. Dessa vez foi o anúncio de tarifas de importação dos mais variados produtos, e tinha de tudo, plateia, apoiador entusiasmado e até um flipchart moderno.
Para o Japão, veio uma alíquota de 24%, o que irá impactar diretamente no fornecimento de semicondutores e automóveis, tornando os produtos japoneses mais caros, mas também aumentará o custo de produção dos produtos produzidos na América, como carros e equipamentos eletrônicos. Já para a China, a nova taxa é de 34%, e os chineses já se manifestaram e recorreram à reciprocidade, também taxando as importações americanas nos mesmos 34%.
Na esperança de proteger o mercado americano dos produtos chineses, o presidente Trump jogou pesado e colocou em risco o setor agrícola norte americano, afinal metade da exportação de soja dos Estados Unidos tem como destino o mercado chines, sem falar do milho, da carne bovina e carne de aves. Para o Canadá a taxa será de 25%, e já que estamos falando de agricultura, cerca de 80% do potássio utilizado pelos Estados Unidos vem do vizinho Canadá.
Com base nos exemplos, fica claro uma coisa, o custo da produção agrícola na terra do Tio San ficará mais alto. Por outro lado, os produtos agrícolas exportados pela América ficarão chegarão aos destinos mais caros, isto é, se forem comprados. Agora imaginem, caso a China diminua a importação de soja dos Estados Unidos, como os chineses fariam para suprir a necessidade do grão para alimentar seu mercado interno? E mais, qual seria o impacto disso na produção de frango e suínos dentro da China?
E o Japão, de onde viria a carne bovina que hoje chega nas mesas dos japoneses com a bandeira americana? Isso sem falar da Índia, da União Europeia, da Rússia.
A China continuará comprando soja, mas parte dela virá de outro lugar. O Japão continuará comprando carne bovina, mas de outro lugar
Ao que parece o governante recém eleito para governar a maior potência do mundo está decidido a bancar esse jogo, e ver até onde vai a dependência americana das relações comerciais, e como isso vai impactar para o dia a dia de seu povo, já que não podemos esquecer de que os americanos são extremamente consumistas, e uma coisa é certa como o dia de amanhã, os bens de consumo ficarão mais caros por lá.
Há quem diga que a recessão é uma questão de tempo, já que com produtos mais caros o consumo certamente diminuirá, e isso geraria uma ação em cadeia passando pela diminuição dos investimentos, do emprego e da renda, ou seja todos perdem.
Mas e o consumo mundial de alimentos, fibras e energia, também vai diminuir? A resposta é não! A China continuará comprando soja, mas parte dela virá de outro lugar. O Japão continuará comprando carne bovina, mas de outro lugar.
E aí surge uma grande oportunidade para o Brasil, afinal somos grandes produtores agrícolas e não temos nada a ver com as ações anunciadas pelo presidente Trump, e como as ações têm consequências, o Brasil tem tudo para abocanhar parte desse mercado que certamente será perdido pelos Estados Unidos.
Só precisamos continuar fazendo o que sempre fizemos: semear a terra, colher e vender, e torcer para que a loucura e os loucos continuem bem longe daqui.
*Luciano Vacari é gestor de agronegócios e CEO da NeoAgro Consultoria.